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Ricardo


Entra em cena e o ar muda, é aquele espécime clássico do colégio: popular, arrogante, pavão de ego frágil. Brilha por fora, apodrece por dentro.

Gosta de pisar nos outros não por maldade pura, mas por medo de cair um milímetro do pedestal; cada piada cruel é um curativo torto para inseguranças gigantescas que ele jamais admitiria. Atleta, charme automático, roupa de marca… e uma alma que implora por ser desmontada peça por peça.




Liliana


A rainha do baile que sabe que a coroa é feita de arame farpado. Longos cabelos ondulados, olhos verdes que enxergam mais do que deveria, sorriso perfeito que raramente é verdade. Divide com Ricardo o veneno social, espalha mentiras, humilha — porque sabe que se parar, desaba. Mas no escuro do quarto, com a maquiagem fora do rosto, ela é a que tenta consertar silenciosamente o estrago que ajudou a criar. É cruel, sim. E é boa, também. 


Esse contraste sempre acaba em tragédia.




Samuel


O cordeiro no meio dos lobos. Magro, tímido, cabelo curto bagunçado, sapatilhas gastas, roupas largas... 


Destoante. 

O olhar dele entrega tudo: insegurança antiga, tristeza acumulada, um desejo desesperado de ser aceito. Perspicaz, leal até demais. É o tipo que faria qualquer coisa se achasse que isso o levaria a uma vida melhor — e Ricardo sabe disso. Explora isso. Distorce isso. O tipo perfeito para ser arrastado até o fundo sem perceber que está se afogando.




Ricardo

O reino dele é o Cacém urbano: prédios altos, cinzentos, corredores que cheiram a fritos, eco de vozes, buzinas, gente demais sempre andando depressa. Ele respira melhor no caos. O apartamento é modesto, mas arrumadinho — não por zelo, mas porque a mãe mantém tudo no lugar. Da janela dá pra ver metade da cidade e o fluxo interminável de gente que entra e sai da estação de comboio. É ali, perto das escadas rolantes e das máquinas de bilhetes, que Ricardo realmente vira “Ricardo”: ombros abertos, andar preguiçoso de quem sabe que a rua pertence a ele, olhar que percorre multidões procurando alguma vitima. 


Samuel

A poucos quilómetros, mas em outro universo. O bairro do Samuel parece uma fotografia esquecida num álbum dos anos 90: prédios pintados há décadas, azulejos gastos, varandas com roupas a secar, um silêncio que não é triste, só antigo. Nada ameaça ali, mas nada brilha também. É um lugar de sobrevivência honesta, onde ninguém repara. 

É perfeito para desaparecer.

Mas quando Samuel pega o caminho até a estação do Cacém, tudo muda. A postura humilde some, engolida por um reflexo condicionado: Ricardo chega, e ele encolhe por dentro. 


O corpo se curva, a voz baixa, o sorriso tímido vira submissão automática. Ali, naquele chão onde o comboio faz as placas vibrarem, ele não é Samuel. 

É sombra. 

É extensão.




Liliana

A casa da Liliana fica num bairro que parece catálogo imobiliário: prédios renovados, fachadas limpas, carros caros estacionados, ruas silenciosas, jardins aparados com precisão militar. Professores, empresários, gente que bebe café expresso às oito e discute investimentos às nove. A vida ali é tão organizada que sufoca.

E a mãe dela é a curadora dessa vitrine. Tudo perfeito, tudo impecável, tudo digno da família. Liliana aprendeu cedo a ser bonita, elegante, coordenada… e, acima de tudo, irrepreensível. Mas perfeição cobra caro. O bullying dela não vem de maldade pura; vem da pressão esmagadora de nunca poder falhar. Melhor humilhar do que ser humilhada. Melhor atacar do que deixar que vejam o lado dela que treme.


Essa Sintra que tu pintou vira palco perfeito: três jovens vivendo a poucos minutos uns dos outros, mas cada um preso em um microcosmo emocional completamente distinto. E quando esses mundos colidem — estação, escola, corredores estreitos — o verdadeiro desastre começa a cozinhar por baixo da superfície.

































O PRIMO: 

Caio Montenegro.


O Primo Brasileiro

O nome dele circula como vento quente na família do Ricardo. Daqueles que já nasceu com o sol nas costas e o privilégio no bolso. Os pais dele são donos de uma fazenda gigantesca no interior do Mato Grosso — não qualquer fazenda, mas uma propriedade de proteção e exportação de grãos, soja principalmente, com aquelas máquinas agrícolas colossais que parecem transformers enferrujados e silos que engolem caminhões inteiros.

Dinheiro não é problema. Nunca foi. Cresceu cavalgando, dirigindo caminhonete aos doze anos, andando de quadriciclo, caçando com o avô (mesmo que fosse só perdiz), nadando em represas, lidando com funcionários como quem lida com primos distantes. Isso moldou nele uma autoconfiança meio exagerada, meio perigosa, que mistura charme e irresponsabilidade. Aquela típica vibe: “Deixa comigo, pô, no Brasil tudo resolve.”


Ele é vida louca no melhor e no pior sentido.

Da última vez que esteve em Portugal, fez barulho: conseguiu arrastar o Ricardo para festas, rodou Sintra como se fosse dono, deixou histórias meio nebulosas sobre brigas, beijos aleatórios e uma garrafa perdida que rachou a testa de alguém. O tipo de pessoa que parece estar sempre prestes a se meter num problema… ou te arrastar junto antes que perceba.


Agora ele está no Brasil enchendo o saco do Ricardo pra passar o Natal com ele. Insistente, pegajoso, insistente de novo. “Vem, pô! Aqui tá quente, tá bom, vai ser massa! Traz uns amigos aí, porra!”

Os pais resolveram alugar um sítio enorme para o Natal — desses sítios cinematográficos: piscina enorme, churrasqueira quase do tamanho de um quarto, trilhas pelos fundos que levam até o pomar, fogão a lenha, varanda que abraça a casa inteira. Toda a família vai. Vai ser festa, barulho, música alta, crianças correndo, cheiro de carne assando e cerveja gelada.


E o Brasil quer o Portugal lá.

O primo tá tão decidido que ofereceu pagar a passagem de três pessoas. Sim, Ricardo, Liliana e Samuel. Porque na cabeça dele tudo é simples:

Quer vir? Eu pago.

Quer viajar? Bora.

Quer sumir um tempo? Fácil.


Ricardo tá irritado porque odeia perder controle.

Liliana fica tentada, mas morre de medo de desagradar a mãe.

Samuel… se o Ricardo disser pra ir, ele vai.


E o primo brasileiro?

Tanto faz se cria confusão. Ele funciona assim. Um sol quente demais invadindo a estabilidade fria de Sintra — e quando sol e gelo se encontram, alguma coisa derrete. Sempre.



O cabelo dele é castanho-escuro, ondulado, bagunçado de um jeito que parece acidental, mas não é. Cai sobre a testa só o suficiente pra dar graça e perigo. Os olhos? Castanho-mel, claros quando bate o sol, escuros quando ele tá prestes a fazer merda. Olhar de quem avalia rápido e disfarça tudo com sorriso debochado.


A boca tem aquele sorriso torto que denuncia que ele já fez e já viu coisa demais. Um sorriso que promete problema. E entrega.


Corpo forte, definido não de academia, mas de vida ativa — músculos que contam história. Antebraços marcados, mãos calejadas apesar da grana. A postura dele é insolente e relaxada: costas largas, peito aberto, andar fácil, como se estivesse sempre entrando num terreno que pertence a ele.


O estilo?

Bem brasileiro rico: camiseta branca justa, corrente de ouro discreta – mas cara –, bermuda de marca, chinelo premium ou bota de fazenda quando resolve bancar o ruralzão. E perfume. O cheiro dele é metade madeira, metade calor humano.